Uma missão em San Antonio (na Rock’n’Roll Marathon)

No livro Marathon – The Ultimate Training Guide, o autor Hal Higdon destaca trechos de correspondências, a ele endereçadas, de corredores que buscam explicar a razão que os levou a correr a primeira maratona. Eis a de um certo Dave Russ: "Na época em que eu morava no Texas, costumava rir de maratonistas. Mudei-me para Boston e para um escritório com vista para a linha de chegada da maratona. Passei a testemunhar a alegria com que as pessoas completavam a prova e, um dia, pensei que talvez os maratonistas soubessem de algo que eu não sabia".   

Hal Higdon sabe tudo. Segundo ele, quem corre uma maratona tem, necessariamente, um objetivo, de três possíveis: (1) completar; (2) melhorar o desempenho; (3) ganhar.

Corri minha primeira maratona em Paris, em abril de 2008, poupando-me para ter a certeza de completá-la. Resultado: 4h01, sete minutos mais lento do que Juliana, minha esposa, que, apesar de também ler o Hal Higdon, tem apenas um objetivo: chegar logo. 

Meu objetivo pós-Paris passou a ser correr, o quanto antes, uma maratona em menos de 4 horas. Logo que soube que uma reunião de trabalho me levaria aos Estados Unidos, e que eu ficaria na Flórida de 12 a 14 de novembro, pesquisei se haveria alguma maratona, preferencialmente em alguma cidade não muito distante de Boca Raton, no dia 16 de novembro de 2008.

Para minha sorte – quem não tem sorte não deveria nem atravessar a rua, muito menos correr 42 km -, no dia 16 de novembro de 2008 aconteceria a Inaugural Rock'n'Roll San Antonio Marathon, que fecharia, pela primeira vez, a Rock'n'Roll Marathon Series (P.F. Chang's Rock'n'Roll Arizona; Country Music Marathon – Nashville; Rock'n'Roll Marathon – San Diego; Rock'n'Roll Half Marathon – Viginia Beach; Rock'n'Roll Half Marathon – San Jose e Rock'n'Roll San Antonio Marathon). O fato de se tratar de uma Rock'n'Roll Marathon não só garantiria uma organização impecável como, de certo, atrairia corredores (atraiu 30 mil) e, também, espectadores. Muitos corredores iriam, inclusive, em busca de medalhas especiais destinadas àqueles que completam mais de uma prova das seis da série Rock'n'Roll (em 2009, mais duas novas provas juntar-se-ão às seis existentes: Rock'n'Roll Seattle e Rock'n'Roll Chicago Half Marathon). No percurso de uma Rock'n'Roll Marathon não falta música: uma banda a cada milha! Na festa de encerramento, tampouco. Em San Antonio, show da banda The Cult, a partir das 18 h e de graça para todo e qualquer corredor inscrito, mesmo que não tenha completado a maratona.   

Além de eu ter encontrado uma prova que prometia atrair bastante público e ser bem organizada, a maratona realizar-se-ia em uma bela e histórica cidade norte-americana. Em San Antonio encontra-se o Álamo, cenário de filmes holywoodianos e símbolo da independência do Texas. San Antonio é, ainda, muito conhecida graças ao chamado Riverwalk, um percurso, que se faz a pé por calçadas estreitas e pequenas pontes, repleto de restaurantes a margear o rio San Antonio, e, claro, pelo San Antonio Missions National Historic Park, onde se encontram cinco sítios de Missões espanholas. Com tantos atrativos, nem precisei perguntar a Juliana se ela gostaria de me acompanhar.

A perfomance do casal. Juliana de fato acompanhou-me, mas somente até o km 10, quando diminuí propositadamente o ritmo por estar correndo bem mais rápido do que o necessário para terminar em 3h53, tempo que me interessava fazer. Quando perdi Juliana de vista, imaginei que ela tivesse partido para buscar tempo suficiente para qualificá-la para a Maratona de Boston (menos de 3h46), afinal nosso ritmo, quando passamos pelo km 10, projetava um tempo de 3h44 no final. Apesar de Juliana, para efeitos de aferição de tempo classificatório para Boston, estar na mesma faixa etária que eu (35-39 anos), para eu poder participar dessa centenária maratona, precisaria, antes, correr uma prova em menos de 3h16. 

Mesmo eu tendo diminuído o ritmo, continuei correndo mais rápido do que o necessário e acabei passando a primeira metade da prova em 1h50. Mantida a velocidade, completaria, eu também, em menos de 3h46. Menos de 3h46? Nem Juliana nem eu. Terminamos em 3h51 e 3h52, respectivamente. Nos últimos 5 km, ambos perdemos rendimento. Quanto a mim, logo que percebi que minhas pernas não seriam capazes de manter a velocidade, voltei para a realidade da planilha que fiz e que me colocaria na linha de chegada em 3h53. Administrei a perda gradativa da vantagem que tinha em relação à planilha para chegar inteiro e um minuto mais rápido, até.

Missão cumprida. Com louvor, permita-se-me dizer. Não só completei a Maratona de San Antonio em menos de 4 horas: completei-a em 3h52. E se em Paris Juliana chegou sete minutos na minha frente, em San Antonio a diferença a favor dela foi de apenas um minuto. Sinto-me pronto para o terceiro objetivo, de três possíveis: vencer. Vencer, no meu caso, não seria simplesmente cruzar a linha de chegada antes da minha mulher. Não. Chegar na frente, sem mais, significaria vencer somente em termos absolutos. Para que eu pudesse ter a chance de vencer realmente, precisaria levar em conta a equivalência da tabela de qualificação para a Maratona de Boston, que pondera as capacidades de homens e mulheres, e correr em menos de 3h16. 

O conto "Bárbara", de Murilo Rubião, termina assim: "Vi Bárbara, uma noite, olhando fixamente o céu. Quando descobri que dirigia os olhos para a Lua, larguei o garoto no chão e subi depressa até o lugar onde se encontrava. Procurei, com os melhores argumentos, desviar-lhe a atenção. Em seguida, percebendo a inutilidade das minhas palavras, tentei puxá-la pelos braços. Também não adiantou. Não lhe vira antes tão grave o rosto, tão fixo o olhar. Aquele seria o pedido derradeiro. Esperei que o fizesse. Ninguém mais a conteria. Mas, ao cabo de alguns minutos, respirei aliviado. Não pediu a Lua, porém uma minúscula estrela, quase invisível a seu lado. Fui buscá-la".

Tempo de 3h16? Vou buscá-lo! E caso o tal Dave Russ ainda trabalhe no escritório com vista para a linha de chegada da Maratona de Boston, ele há de me ver chegar. 

Mais detalhes sobre as Rock'n'Roll Marathons, no site www.rnrmarathon.com 

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