Oito segundos e a crueldade do relógio no esporte

O que representam oito segundos no esporte? No nosso caso, no atletismo e mais especificamente nas corridas? Em provas de velocidade, uma eternidade. Quase o tempo que Usain Bolt leva para percorrer 100 m. Nos 200 m, 400 m e até nos 1.500 m, oito segundos são demais. E na maratona? Em 42.195 m, perdemos oito segundos ao reduzir para tomar um copo de água, deixar o gel cair da mão, pegar tráfego numa curva e não tangenciar…. No caso dos profissionais, uma trombada, uma confusão no posto de abastecimento… Algo quase que insignificante. Quase.

Não use a palavra insignificante para o americano Dathan Ritzenhein, que bateu o recorde pessoal com 2:09:55 na seletiva dos EUA para a Olimpíada de Londres e por oito segundos está fora do time titular – o terceiro colocado, Abdi Abdirahman fez 2:09:47. Está certo que Ritz classificou-se como reserva, mas se ninguém se machucar, verá Londres 2012 fora das ruas…

Essa crueldade do relógio no esporte prega peças também em nós, simples amadores. Os oitos segundos tornam-se horas para quem se preparou durante meses, chegou na maratona e passou o tapete em 3:00:07. Um tempo fenomenal. Mas por “apenas” oito segundos, não foi sub 3h. E o 1:30:07 na meia-maratona ou 40:07 nos 10 km?

Muitas vezes, não percebemos, principalmente numa maratona, que vamos dar de cara na trave por oito segundos. É difícil raciocinar, fazer as contas necessárias após 40 quilômetros correndo, porque oito segundos são possíveis de tirar nos dois quilômetros finais… Confesso que muitas vezes fico olhando resultados de maratonas pelo mundo e me deparo com alguns 3:00:01, 3:00:02. Fico com pena e imaginando sem nem conhecer a pessoa… Vale o mesmo para os 21 km. Já nos 10 km, aí, a história complica-se um pouco mais… Qualquer segundo é suado demais!

Em outros momentos de uma corrida, mesmo você sabendo que falta pouquinho, a cabeça chega a mandar a ordem, mas as pernas resistem em responder. Lembrando outro caso recente histórico, o queniano Wilson Kipsang, em Frankfurt (Alemanha), que ficou a apenas quatro segundos do recorde mundial do compatriota Patrick Makau: 2:03:42 a 2:03:38. E olhe que apertou muito na reta final… se tivesse começado a acelerar um quilômetro antes…

Eu mesmo, na Meia-Maratona de Buenos Aires, em 2010, não tinha ainda sub 1h30 e por volta do km 15, achava que não conseguiria a marca. Cansado, acabei reduzindo um pouco para beber água e, depois, caminhei um pouquinho tomando o isotônico no último posto. Voltei ao ritmo, acelerei e acabei com 1:30:32. Tenho certeza que pedi 33 segundos nessas duas “bobeadas” na reta final, mas não consegui fazer a conta exata no momento…

Não temos como fugir. Profissional ou amador, em algum momento de nossa vida esportiva, seremos vítimas da crueldade do relógio.

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