Como já previa a meteorologia, o clima não era o ideal para uma maratona. Ainda mais no Hemisfério Norte. Chicago tem essa característica. Numa prova de 10 km ou até na meia-maratona, a temperatura tem uma influência menor. Nos 42.195 m, é determinante para uma quebra de recorde. Seja mundial, da prova ou pessoal. Como disse o comentarista na NBC Chicago, o clima tem de ser o ideal para vermos um recorde mundial e neste domingo (09), não era o dia.
Tudo ia conforme o planejado até por volta do km 30. Me sentia bem, confiante. A média de 18,5°C era praticamente a mesma desde a largada. Enquanto o primeiro pelotão era constante, eu ia num ritmo tranquilo, dando meus pitacos sobre a edição deste ano e informações sobre a história da tradicional Maratona de Chicago. Marilson tinha ficado um pouco para trás dos líderes. Mas os africanos tinham acelerado. Seria uma explicação.
Porém, entre o km 30 e o 35, o pior. Marilson, com indisposição, não passou pelo penúltimo ponto de marcação antes da chegada. O sonho do recorde sul-americano e do índice antecipado para Londres-2012 estava adiado. Enquanto isso, eu, amador, também quebrei… Foi a primeira vez que quebrei numa maratona. E pelo Twitter!!! Isso mesmo. Quando a prova estava por volta do km 32/33, uma mensagem: “Você ultrapassou o limite diário. Aguarde algumas horas”. Como assim? Nem sabia que havia limite diário no Twitter. Bem no momento em que a prova esquentou? Marilson parou, Mosop disparou, Cruz Nonata entre as dez no feminino?
Continuo sem entender, mas na reta final fui sacado da Maratona de Chicago. Fui “Quebrado” pela tecnologia. Nada mais de comentários. Nada de bate-papo com os leitores. Nada de informação. Assim, seguem abaixo os comentários que gostaria de ter feito “ao vivo”, mas não consegui.
1) Marilson Gomes dos Santos quebrou. Passou mal e abandonou no km 33. Acontece, é verdade. Elite e nós, simples mortais amadores, estamos sujeitos a um dia ruim. Dia que influencia na maratona. Agora, Marilson atingiu um patamar de respeito e talento. Não pode cometer certos erros. O clima era o mesmo para todos, então, por favor, não dá para dizer que pode ter sido o isotônico quente. Um problema facilmente evitado. Esse é o tipo de erro que não pode ser cometido. O momento é de seguir com o trabalho. Mais pressionado, com uma cobrança maior, sem dúvida. Uma batalha foi perdida, não a guerra.
2) Moses Mosop, mesmo em um dia em que o clima não ajudou e que não teve realmente disputa, mostrou ser fortíssimo candidato ao ouro olímpico em Londres. Em sua segunda maratona, vitória e recorde de Chicago, com 2:05:37. E tirou muito o pé a partir do km 35. Basta ver as passagens e o gráfico disponível no site da prova. Como ele mesmo disse nesta semana, o recorde mundial será dele. Não tenho dúvida. Só uma questão de tempo.
3) Nas três primeiras posições de Chicago, três quenianos. A supremacia deles é cada vez mais evidente. No masculino, neste ano, Quênia venceu em Londres, Paris, Boston, Roterdã, Berlim, Chicago e o Mundial de Daegu. Citando só as maiores. Está faltando Nova York.
4) A russa Lillya Shobukhova, duplamente, fez história em Chicago. Primeiro, por ser a primeira mulher tricampeã da prova. Em três anos seguidos. Depois, por ser a segunda mulher mais rápida de todos os tempos a correr os 42 km (2:18:20), atrás apenas das duas marcas da britânica Paula Radcliffe. A disputa na Olimpíada de Londres promete e, hoje, a maior ameaça ao amplo domínio queniano vem da Rússia.
5) A brasileira Cruz Nonata foi muito bem em sua estreia. Vivendo o melhor momento da carreira, marcou 2:35:35 e teria o índice A da Iaaf para Londres, porém, a CBAt quer levar para a Olimpíada só quem tem chances de medalha! Com a estrutura que oferecem e o apoio que os atletas têm no Brasil de uma maneira geral, não sei como podem pensar assim. Dessa forma, pela média da CBAt, precisará de 2h30 para ir a Londres. Uma palhaçada. Valorizam mais o Pan-Americano do que a Olimpíada. Tem o índice A? São três vagas para o Brasil? As três melhores deveriam ir. Mas a CBAt não pensa assim. Será que não sabem que estar numa Olimpíada é a consagração de uma vida? O ápice de uma carreira no atletismo?
6) Pelos números da NBC Chicago, 1 milhão de pessoas nas ruas acompanhando e apoiando os corredores na maratona. Será que um dia chegaremos nesse nível? Eu não verei, com certeza. Mas será que meus filhos ou netos terão esse privilégio?
É isso e, aproveito, para pedir desculpas a quem estava conversando comigo sobre a Maratona de Chicago pelo Twitter. Nem pude responder algumas perguntas nem me despedir. Quebrei!
Abraço e até a próxima.