Tudo bem que os homens vêm mudando o comportamento nos últimos tempos, mostrando-se muito mais participativos no dia-a-dia e na divisão de funções em casa. Mas há que se admirar essas mulheres que são mães e, mesmo com a agenda pessoal e profissional lotada, ainda encontram um tempo para si e se dedicam com vontade a uma atividade física.
Para homenageá-las nesse mês de maio, destacamos a história de quatro mulheres paulistanas que elegeram a corrida como forma de aumentar a energia e aliviar as tensões da correria cotidiana. Com isso, ganham todos: mães e filhos.
"As pequenas adoram as medalhas"
Para a administradora de empresas Sandra Pini Dantas, 39 anos, casada, mãe de Isabela, 9, e Marina, 7, a corrida é uma fonte de energia. "Nós, mulheres, conquistamos tantas coisas, somos tão fortes e temos esta capacidade de dar conta de várias atividades ao mesmo tempo, mas também assumimos muita responsabilidade. Não é fácil conciliar trabalho, filhos e esporte… Às vezes é preciso ser até um pouco ‘egoísta'. Eu encontrei esse espaço que preciso na corrida e não abro mão, porque me dá força e disposição para encarar a correria do dia-a-dia", conta.
Assim como acontece com muitas mulheres, depois que as meninas nasceram, Sandra deu um tempo nas atividades físicas que praticava. "Achava que após um longo dia de trabalho tinha que voltar correndo para casa, para cuidar das pequenas. E ainda era preciso dar atenção ao casamento, à casa, cumprir metas no trabalho… Resultado: não sobrava mesmo tempo para mim. Depois de alguns anos percebi que estava sem energia, me faltava equilíbrio. E foi aí que a corrida entrou na minha vida".
Ela começou em 2001, incentivada por um amigo de trabalho. Atualmente treina três vezes por semana. Da corrida, Sandra tira muitas lições: "Aprendi a pedir ajuda. Hoje divido muitas tarefas com meu marido, que percebeu como o esporte é importante para o meu equilíbrio e como isso se reflete em nossa relação. Além disso, tem os benefícios de saúde, disposição, autonomia, segurança e disciplina".
A bordo de suas bicicletas, Isabela e Marina também costumam acompanhar a mamãe em suas corridinhas pelo parque. "E elas já foram me assistir em uma prova de 10 km. Até participaram do alongamento; na chegada, foi aquela emoção. Ficaram super orgulhosas. Agora adoram colecionar as medalhas das corridas que participo", diz Sandra.
"Mostro que o importante é participar"
A arquiteta Luciana Smith de Vasconcellos, 33 anos, casada, mãe de Juliana, 7, e Camilla, 5, admite que não é tarefa fácil conciliar o esporte com todas as outras atividades diárias. Mas procura administrar a questão estabelecendo prioridades. "O fundamental foi perceber o quanto a corrida era importante na minha vida. A partir daí, parei de me culpar e dizer ‘não vou correr porque não quero deixar as crianças sozinhas'", revela.
Apesar do marido ser corredor dos mais entusiasmados e dedicados -hoje, aliás, além de diretor comercial de uma empresa de aparelhos auditivos, ele abriu sua própria assessoria esportiva, tamanha é sua paixão pelas corridas -, Luciana demorou a render-se ao esporte, o que aconteceu há três anos. "Fui passar uns dias com alguns amigos em Campos do Jordão. Todas as manhãs eles saíam para correr e eu ficava em casa com as crianças. Cansei e resolvi mudar", conta. Durante uma outra viagem com o marido, ela encorajou-se a acompanhá-lo. "Coloquei o tênis e sai a seu lado. Conhecemos vários lugares interessantes. Agora sempre que é possível corremos juntos e colocamos o papo em dia". A atividade esportiva, inclusive, foi devidamente inserida na agenda familiar. "Todas as terças vamos os quatro ao parque: Marcelo e eu corremos e as meninas fazem aula de patins. Às vezes corro e a Juju segue de bicicleta".
Para Luciana, até o rendimento no trabalho melhorou. "A hora da corrida é um momento em que penso em mim, me organizo. É nessa hora que costuma surgir aquela inspiração que faltava para acabar um projeto", garante.
E as meninas amam acompanhá-la nas competições. "Na minha primeira prova, a Camilla disse: ‘Mãe, você ganhou!' Eu achei uma graça, pois na verdade ela estava preocupada de eu ficar triste por não ter chegado em primeiro lugar. Mas foi aí que começou a aprender que o mais importante era participar. Hoje elas esperam ansiosas pela minha medalha de participação. Afinal, completar uma prova é sempre uma vitória", vibra.
"Minha filha me acompanha nos treinos desde 1 mês"
A contadora Cristina Palmaka de Luca tem 38 anos, é casada e mãe da pequena Katarina, 1. Corre há 7 anos. "Iniciei nas corridas de rua – a primeira foi a Corrida dos Bombeiros, de 8 km, quando na verdade mais caminhei. Depois da prova, passei a buscar informações sobre como treinar, (uma de minhas fontes foi – e ainda é – a revista Contra Relógio) e um treinador para poder praticar o esporte de forma mais estruturada. Comecei a participar de provas de 5 km, 10 km, 15 km até chegar à minha primeira meia-maratona. Sabia que teria de percorrer um longo caminho de preparação para uma maratona, mas o desafio me pareceu interessante e resolvi enfrentá-lo em 2003, em Chicago. Foi uma grande emoção cruzar a linha de chegada com o tempo de 3h53. Não parei mais. Foram várias provas de 10 km, algumas São Silvestres e outras maratonas como Paris (2004), Boston (2005) e Nova York (2006) – esta última oito meses após o nascimento da minha filha", conta.
Ela treina de quatro a cinco vezes por semana e atribui à disciplina o fato de conseguir conciliar o esporte, a maternidade, as tarefas domésticas, o casamento e o trabalho. E é justamente a corrida que dá base à Cristina. "Me ajuda a ser uma pessoa mais disciplinada e centrada. O momento do treino é muito particular, é a hora que uso para pensar, rever as coisas do dia, é minha terapia contra o estresse".
E apesar de tão pouca idade, Katarina já é uma veterana no meio das corridas. "Levo minha filha aos treinos desde que tinha um mês de vida. Como amamentava, saíamos cedo para a USP com ela e até hoje a levo em algumas das provas. E tenho certeza que adora. Quando estou me preparando para sair e pego o carrinho de corrida, Katarina vem correndo, senta e fica feliz aguardando a hora de sairmos para curtir o passeio".
O dia das mães do ano passado foi muito especial para Cristina. Até porque coincidiu com a realização de uma competição de 10 km, em São Paulo. "Foi meu primeiro dia das mães e a primeira prova que corri com minha filha, que estava com dois meses. A emoção de estarmos juntas neste momento, em um esporte que eu adoro, foi realmente emocionante. Para este ano, não tenho um plano específico, mas certamente se tiver alguma corrida, lá estaremos: eu, minha filha e meu marido".
"Incentivo a tentar sempre o melhor"
Maria Francisca Sachs, 51 anos, administradora de empresas, tem orgulho das filhas Claudia, 21, e Isabel, 20. E elas da mãe corredora. "As duas acham muito legal o esporte e até começaram a correr – inclusive já fizemos provas juntas. Eu sempre incentivei a prática de alguma atividade esportiva, pois além dos benefícios para a saúde e o bem-estar, vejo a corrida como uma maneira de aprender a lidar com os imprevistos, que são constantes nas pistas e na vida. Acredito que saber competir e tentar o melhor é fundamental para o desenvolvimento dos filhos", conta Chica, como é mais conhecida em sua equipe de corrida.
Foi em 1995, quando decidiu fazer algo para melhorar sua condição física, que a administradora descobriu a corrida. "Queria abandonar o cigarro e um amigo me convidou para treinar com o Miguel Sarkis. No início eu andava, depois passei a correr e não parei até hoje".
Chica diz que agora não precisa de grande logística para conciliar a atividade esportiva, que realiza quatro vezes por semana, com as outras tarefas cotidianas. "Correr é a primeira coisa do dia: acordo e corro". Mas quando começou, não era bem assim. "Ajustava o horário dos treinos à ida das meninas à escola", lembra. E como será o dia das mães? "Não sei se estarei fazendo alguma prova. Se puder fazer, por que não? Mas com certeza vou estar com minha mãe e minhas filhas".
BOM EXEMPLO PARA OS FILHOS
Psicólogo formado pela PUC de São Paulo, atuando há 10 anos na área esportiva, João Ricardo Cozac aponta grandes benefícios da influência da corrida na relação mãe e filho. "Em primeiro lugar, é muito bom a mulher encontrar um tempo para pensar em sua saúde e para cuidar de seu corpo de forma prazerosa. Correndo, ela ainda reduz a ansiedade e as chances de ter depressão, melhora sua qualidade de vida de maneira global e tudo isso, claro, se reflete no relacionamento familiar", diz o especialista, que também é presidente da Consultoria, Estudo e Pesquisa da Psicologia do Esporte (CEPPE).
A mãe que pratica um esporte torna-se uma referência afetiva às crianças e adolescentes. Entre as características positivas que a corrida traz estão motivação, concentração, superação. João Ricardo lembra apenas que, mesmo sendo uma grande paixão da mãe, essa atividade física – como qualquer outra – deve entrar de maneira natural na vida dos filhos. "É preciso oferecer o maior leque de modalidades possíveis. A criança só deve optar por uma delas depois dos 10 ou 11 anos. É a fase em que se começa a perceber a verdadeira aptidão da criança. E nada de pressionar por resultados", aconselha.