Uma ou duas décadas atrás as provas eram poucas, organizadas de maneiras simples, reunindo quase sempre os mesmos corredores. Hoje o calendário está repleto – às vezes com duas ou mais no mesmo final de semana – e muitas se tornaram mega-eventos, onde a corrida chega a ser apenas um detalhe. Amadores das "antigas" contam a seguir detalhes dos "bons tempos" e refletem sobre o crescimento do setor.
"FALTA SIMPLICIDADE E PAIXÃO". A bióloga Adriana Souza de Toledo Piza, de 44 anos, de São Paulo, participou de sua primeira prova em 1983, aos 16 anos. "Vi a propaganda de uma corrida feminina, Circuito Avon de 10 km. Não tive dúvida, me inscrevi. Depois dessa não parei mais. Era pouca gente participando e a maioria dos corredores se conhecia".
Em 2001, por conta do nascimento de seu primeiro filho, Adriana deu um tempo nas competições. Ficou 10 anos afastada. "Antes mesmo de voltar a fazer uma prova, em 2010, tive um primeiro choque ao ir correr em um sábado na USP, o que também havia deixado de fazer por anos. Ao chegar de carro, falei para meu marido ir devagar porque devia estar acontecendo algum evento, pois tinha muita gente correndo. Achei que estávamos invadindo uma corrida oficial. Mas eram apenas as pessoas treinando. Há 10 anos não havia nada disso. As assessorias eram poucas, uma aqui outra ali… Comecei a ver que tudo havia mudado e agora havia muita gente correndo!"
Quando resolveu voltar a participar das provas de rua também ficou impressionada com tantas opções. "Mais de uma corrida no mesmo final de semana, às vezes três ou quatro. Podia escolher à vontade, distâncias variadas, em diferentes locais da cidade. Optei por uma prova de 5 km, distância que sempre gostei, e na Ponte Estaiada, novo cartão-postal da cidade. Fui sozinha, sem saber o que iria encontrar e como seria a sensação uma década depois".
Com mais duas corridas acontecendo na cidade naquele mesmo dia, Adriana achou que seu retorno seria bem calmo… "Quando cheguei ao local para retirada do chip, havia filas enormes. O que era aquilo? De onde veio tanta gente? Todo mundo resolveu correr? A quantidade de pessoas foi o que mais me chocou, quantidade essa que só via na São Silvestre".
Ao final da prova, uma surpresa: ela foi a terceira colocada geral. "Isso foi outra coisa que me chocou: aquele mar de gente, eu 10 anos mais velha, com tempos muito aquém dos que fazia antes, e ainda assim consegui uma ótima colocação. Aí me dei conta que tudo mudou: o público era outro. A corrida se popularizou, o que é ótimo. Porém o número de atletas que correm forte não aumentou e eles ficaram divididos em várias corridas. Fui embora contente, mas com a sensação de que a corrida de rua havia mudado. Não era mais como antigamente, o que não era ruim, eu precisava apenas me adaptar à nova era".
Nas corridas que fez depois, passou a notar também a forte presença da tecnologia. "Deparei-me com totens com tempos parciais eletrônicos em cada quilômetro e chip descartável. Sou da época em que nem havia chip. Corríamos com um monte de filipetas pregadas no número de peito e íamos colocando em sacos plásticos em determinados pontos pelo caminho. No final, a última filipeta era entregue e colocada em ordem de chegada em espetos de metal. E o pós prova? Temos hoje as dezenas de assessorias com barracas oferecendo toda infra-estrutura para a chegada, com frutas, isotônicos, massagem, coisas que nem sonhávamos antes. E a divulgação dos resultados? Antigamente eles eram afixados um período após a corrida ali mesmo no local e, dependendo da prova, ainda saíam em algum jornalzinho ou folheto e só. Agora está tudo na internet, fotos, filmagens… Um verdadeiro comércio se instalou".
Adriana é enfática em dizer que considera ótimo que a corrida tenha atraído tantas pessoas. "Mas sinto que falta um pouco daquele sentimento de simplicidade, de paixão, de contemplação… A corrida proporciona não só um bem-estar físico, mas emocional e espiritual também. Antes fazíamos a corrida de forma mais natural. Tudo que precisávamos era de um par de tênis, shorts, camiseta e às vezes um relógio com cronômetro. Hoje muita gente acaba se perdendo em itens que não existiam antes, como tocadores de música tecnológicos e relógios com milhares de informações. A meu ver, isso leva a correr em ‘modo automático'. A pessoa segue distraída pela música e sem se preocupar com o que o corpo diz, pois o que vale é a informação do relógio. O gostoso desse esporte é justamente a concentração que ele possibilita, é correr observando a paisagem, ouvir diferentes sons, sentir o próprio corpo, conhecer seus limites".
"A PROVAS VALIAM PELA TRADIÇÃO, PERCURSO E ORGANIZAÇÃO". A estreia nas corridas aconteceu em dezembro de 1980. Desde aquela época o professor de história Marcelo de Oliveira Assunção, de 46 anos, do Rio de Janeiro, participa de competições de rua. "Havia poucos organizadores, que liberavam um calendário anual, permitindo que a gente se preparasse com tranquilidade, escolhendo as provas certas. Não tinha a estrutura disponível hoje, fazendo a gente sofrer com falta de banheiros e, muitas vezes, de hidratação. Praticamente sem kits e medalha de participação, as provas acabavam valendo pela tradição, percurso e organização".
Ele lembra que nos anos 80 apenas a Maratona do Rio dava camisetas ao final da prova. "Vinham com a inscrição ‘eu completei' e eram verdadeiras medalhas de vestir! Nesse tempo, conseguir uma medalha tinha um significado super-especial, pois significava ter subido ao pódio. Só mais adiante começaram a dar medalhas de participação também".
Em relação às provas de hoje, Marcelo considera que muita coisa melhorou, porém também nota muita badalação em torno do assunto. E diz que sente falta de correr sem gastar tanto dinheiro. "No começo dos anos 80 também houve certo oba-oba, que deu origem a toda uma geração de corredores. Acho legal ter esse aspecto festivo para que mais pessoas conheçam o esporte e até o levem a sério, se conseguirem perceber seu significado, além da curtição. O que me incomoda, porém, é o aumento dos mimos nos kits e nas corridas – exigidos pelo ‘corredor modinha' -, que se reflete no preço das inscrições. Normalmente não corro essas provas, por isso não me chateio muito com isso. Incomoda também a atitude da emissora da TV Globo que ignora nosso esporte de modo geral e só dá exposição às suas próprias provas".
Sobre a tecnologia que começou a ser agregada à corrida – como relógios com GPS, roupas e tênis especiais -, o professor acha que pode ser válida para quem precisa. "Alguns dos tênis de hoje são muito bons. As roupas dão de 10 nas antigas, adoro todas. As provas cheias de gente são até divertidas, mas não são as minhas preferidas, pois dificultam a busca de performance. Mas continuo usando apenas relógios que mostram o tempo de corrida – e nada mais. Acho GPS uma inutilidade, pois promete o que não cumpre, ao não medir direito a distância. E quanto aos monitores cardíacos, podem ser úteis para quem precisa ficar olhando aparelho para saber se está cansado. Pessoalmente, prefiro prestar atenção em mim mesmo e perceber o que meu corpo sente. Nenhuma máquina pode substituir o auto-conhecimento. Porém adoro os sites de medição de percurso, ajudam bastante. Costumo usá-los para planejar caminhos e para conferir trajetos que precisei improvisar".
Das corridas antigas, a que mais faz seus olhos brilharem é a Corrida da Ponte. "Era a melhor prova dos anos 80. E felizmente ela voltou. Já atravessei essa ponte sete vezes. Talvez eu seja o que mais vezes fez isso".
"USÁVAMOS QUALQUER TÊNIS". Corredor há quase 30 anos, o operador de computador pleno Márcio Aparecido de Oliveira, de 46 anos, de São Paulo, lembra que nos anos 1980 não havia distribuição de medalhas para todos que participavam de provas. "E muito menos se cobrava inscrição. Tênis, então, podia ser qualquer um. Não existia essa tecnologia que desenvolveram nos últimos tempos."
Para ele, as maiores mudanças daquela época para hoje foram o aumento do valor das inscrições e os kits de prova recheados. "Também existe pouca vontade de competir. As pessoas vão apenas para completar."
A corrida ter virado moda não o incomoda – é bom que mais gente tenha descoberto a atividade física. "O que irrita, na verdade, são as pessoas que não respeitam quem está ali para melhorar a performance e muitas vezes largam na frente, atrapalhando o caminho".
"O VERDADEIRO CORREDOR SE PREOCUPA EM SUPERAR SEUS LIMITES". Gerente de logística de Salvador, João Paulo Zortea, de 42 anos, começou a correr e participar de provas no início dos anos 1990. "Não havia essa quantidade de eventos que existem hoje. Eles eram muito mais aguardados." Em sua opinião, o profissionalismo das empresas organizadoras tornou a prática um negócio lucrativo. "Hoje a corrida é um negócio no qual empresas se especializaram e não apenas um evento esporádico."
E se antigamente o corredor era visto como "maluco" – "aquele cara que acordava de madrugada para treinar, saía correndo para qualquer lado, sem destino, sem foco…" -, agora praticar corrida está "na moda". Para João Paulo, isso faz com que parte das pessoas esteja nas provas apenas para ver e ser visto. "Mas isso não é negativo, pois, indiretamente, essas pessoas estão cuidando da saúde e influenciando outras a fazer o mesmo. Não me incomoda de forma alguma essa nova era da corrida. Acho até que pelo número de provas e pelo número de participantes ainda há pouca cobertura da imprensa; noto a presença somente de veículos especializados. A televisão, por exemplo, poderia transmitir um número muito maior de competições."
Ele conta que acompanhou a evolução das corridas e se diz adepto à tecnologia. Usa relógios tecnológicos, tênis e roupas específicos e mp3. "Com bom senso podemos usá-los sem nos afastarmos do principal objetivo, que é correr. Acredito que o verdadeiro corredor se preocupa sempre em superar seus limites. E não há nada melhor do que cruzar a linha de chegada se sentindo bem, saber que fez o melhor que pode. É por isso que corrida é tão viciante. Endorfina na veia!"